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A música como instrumento para modular episodicamente a cognição, emoções e o comportamento humano

Atualizado: Abr 9


Autor: Rodrigo Drumond Vieira

PhD em Educação pela “Universidade Federal de Minas Gerais” (UFMG), com período complementar na “The Pennsylvania State University” (EUA). Mestre em Educação e Licenciado em Física, ambos pela UFMG. Conduz pesquisa multidisciplinar de inovação, e publicou seus trabalhos em periódicos de impacto, tanto internacionais quanto nacionais. Suas pesquisas envolvem questões teóricas, metodológicas e empíricas. Trabalhou como professor em regime de dedicação exclusiva na “Universidade Federal Fluminense” (UFF), no estado do Rio de Janeiro, e foi professor de física do ensino médio e da educação de jovens e adultos em uma escola pública no estado de Minas Gerais. Atualmente, trabalha na organização de pesquisa “Medea”, com foco em pesquisas de inovação. Ele também se dedica a escrever literatura de ficção e criação musical.


A música como instrumento para modular episodicamente a cognição, as emoções e o comportamento humano



Como resultado da organização de pesquisa Medea, liderada por mim,

apresento este artigo para divulgação para o grande público.



A música é reconhecida desde os tempos remotos como meio de prazer e inspiração. Nossa organização de pesquisa desvendou o mecanismo pelo qual a música pode modular, em circunstâncias apropriadas, a atividade humana (cujos componentes estruturais são a atividade, a ação e a operação). Neste caso, a modulação implica em capacidade de controlar, influenciar ou mudar um determinado processo, e atingir um determinado efeito (físico, psicológico etc.).


No ser humano, a modulação pela música abrange a cognição, o comportamento, e as emoções, que são processadas de forma integrada e articulada quando o ser humano age. Além disso, a modulação implica a ativação de todo aparato psicológico do ser humano, o que inclui a motivação, o pensamento, a memória, o sistema motor, a sensação, a percepção, e a atenção.


A música pode modular qualquer indivíduo, exceto nos casos de surdez. Contudo, existem diferenças individuais quanto aos graus de sensibilidade, percepção, cognição, motivação etc., que podem apresentar maior ou menor capacidade de recebimento de estimulação musical e nível de resposta ao estímulo.


A música apresenta ritmo, tempo, melodia, harmonia, tipos de escala (por exemplo, menor ou maior), e letra. Cada um desses componentes, quando integrados em uma música, estabelecem um canal poderoso para modular como as pessoas agem, falam, pensam, sentem. Sob circunstâncias apropriadas, essa modulação pode se tornar episódica. Um episódio caracteriza-se por uma ação (processo orientado à satisfação de um objetivo consciente), ou conjunto de ações, que são desenvolvidas no âmbito de uma determinada atividade motivada com foco temático. O episódio apresenta estrutura temporal e lógica, com fases de começo, meio e fim. O agir episódico modulado pela música pode durar aproximadamente o tempo de duração da música. Com treino e, em certos indivíduos, essa modulação episódica pode se tornar praticamente exata.


Tanto a música quanto os estados emocionais engatilhados por ela, influenciam a ação e o pensamento, em diferentes níveis, como seus processos, intensidade e velocidade, relacionados com processos de tomada de decisão e a execução de operações mentais e motoras. Além disso, a modulação pela música pode, em situações de trabalho, influenciar a excitação, manter a atenção, e atenuar a sensação de cansaço e fadiga, contribuindo para a qualidade e manutenção da atividade em curso.


Em estágios avançados de uso do recurso de modulação pela música, o indivíduo pode adquirir habilidade de autocontrole da sua cognição, emoção, comportamento e motivação, o que pode implicar em melhor gestão no desempenho de suas atividades de trabalho, criação e aprendizado. Assim, a modulação pela música apresenta implicações para a ergonomia e para a educação.


A explicação para o processo de modulação reside no fato de que a música apresenta modos de sinalizar para o ouvinte processos de mudanças, estabilidade, gatilhos cognitivos e comportamentais, além de estimular a emergência e permanência de emoções, dentre outros. O indivíduo é estimulado pela música, consciente e inconscientemente, e ele responde, de uma forma ou de outra, a esses estímulos; a intensidade e a qualidade da resposta vão depender de familiaridade com a música, aspectos culturais, fisiológicos e psicológicos. Além disso e, fundamentalmente, o sentido pessoal que o indivíduo constrói sobre o objeto de seu pensamento influencia a resposta do indivíduo ao estímulo musical, que por sua vez serve como base para retroalimentar o processo de modulação, seja para a sua manutenção ou transformação. Ou seja, é na relação estabelecida entre o objeto de pensamento e o estímulo musical que o indivíduo constrói o sentido pessoal sobre essa relação, o que culmina na modulação cognitiva, comportamental e emocional.


É interessante notar que uma mesma música, ao modular um indivíduo, pode levar a estados emocionais opostos, por exemplo, de tristeza à euforia, a depender da relação estabelecida entre a música e o objeto de pensamento do indivíduo e o sentido pessoal que é construído por ele sobre essa relação, que também é influenciado pelas circunstâncias de produção nas quais o indivíduo se engaja.


Assim, o processo de modulação é construído fundamentalmente na interação entre o sentido pessoal do indivíduo com pensamento direcionado e o processo de sinalização da música sobre o indivíduo. Por exemplo, se um indivíduo em atividade de trabalho precisa realizar em determinado momento o procedimento de aumentar a velocidade com que desempenha sua ação, uma música pode sinalizar para ele o momento de acelerar o ritmo de sua ação, e isso funciona muito melhor quando o indivíduo conhece a música e gosta dela, pois nesse caso ele pode antecipar (consciente ou inconscientemente) o sinal e sua operação coincidirá melhor com o momento em que o sinal é executado na música. Além disso, gostando da música, o indivíduo terá maior prazer, motivação e vontade para responder com maior intensidade e precisão aos estímulos musicais. A modulação acontece melhor quando o indivíduo tem vontade de ser modulado pela música.


Visando melhor ergonomia e conformação da modulação pela música à tarefa ou atividade, o pesquisador ou técnico pode, com auxílio de um computador e outras tecnologias, utilizar ou criar músicas específicas para cada tipo de tarefa de acordo com as necessidades, características e preferências do indivíduo que age. Assim, a conformação da música à realidade do indivíduo colabora para que a modulação seja mais eficiente e produtiva. Nesse sentido, o indivíduo pode ser treinado para responder aos sinais musicais visando melhor adequação da modulação às especificidades da atividade ou da tarefa a ser executada. Por exemplo, o pesquisador ou técnico pode lançar mão de músicas com momentos de densidade e tempo lento alternadas com momentos brilhantes e de tempo rápido, com viradas sinalizando mudanças entre essas fases. O indivíduo que domina as operações do trabalho que executa, ao ser estimulado por essas variações e características musicais, e tendo pensamento orientado a um foco, no caso, um foco de trabalho (por exemplo, limpar um aposento de sua residência), pode responder adequadamente aos sinais musicais, de modo que um sentido pessoal seja construído por ele. O sentido pessoal, pode ser, por exemplo, entender essa limpeza como atividade recreativa e ter vontade de executá-la o mais rápido possível. Nesse caso, a música deve ser rápida e brilhante, com estimativa de durar o tempo de uma limpeza padrão do aposento. o que fortalece a modulação episódica nesse indivíduo. Assim, o indivíduo passa a agir em conformidade com os sinais musicais, emergindo, portanto, a modulação pela música. O treino para que a modulação ocorra e seja eficaz pode ser feito em tempo real, quando se observa o nível de modulação do indivíduo sob a influência da música em andamento e o seu ajuste à satisfação das demandas da tarefa em execução. Nessa via, o pesquisador pode ajustar a música tendo em conta o sentido estabelecido entre a música e o trabalho/tarefa a ser realizado, e as respostas que a música suscita no indivíduo (cognitivas, emocionais e motoras)


Medea:

Rodrigo Drumond Vieira - Eman Riyadh Adeeb ALqaisi

João Lobato - Arthur Lobato

Alice Cardoso Ferreira


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